Levantamento da BBC identificou mais de 80 vídeos em dez idiomas diferentes com notícias falsas nos cuidados da doença
Encontrar informação sobre qualquer assunto é muito fácil, basta procurar na internet. Muitas delas são úteis e ajudam a resolver problemas do dia a dia. Outras, no entanto, podem ser extremamente prejudicais. Isso vale especialmente para informações relacionadas à saúde. No YouTube, por exemplo, é possível encontrar diversos vídeos indicando a cura para o câncer sem qualquer embasamento científico. Esse tipo de conteúdo costuma atrair muitos pacientes – e seus familiares – em busca de uma maneira simples de restabelecer a saúde.
É importante ressaltar que a maioria dessas informações é dada por leigos sem qualquer experiência na área da saúde. Uma investigação feita pela BBC descobriu mais de 80 vídeos (em 10 idiomas diferentes) que divulgam tratamentos alternativos ou mesmo a cura para o câncer – uma doença que, em alguns casos, nem mesmo a medicina consegue solucionar completamente. No Brasil, por exemplo, um canal chamado “Elizeu Artes e Criação” apresenta o melão-de-são-caetano como um remédio caseiro contra o câncer.
O dono do canal afirma em vídeo que “de 80% a 90% das células de câncer são desfeitas com melão-de-são-caetano”. A informação é completamente infundada: os estudos realizados até agora indicam que a planta tem potencial para fornecer substâncias anticancerígenas, mas nenhum deles conclui que o melão-de-são-caetano é capaz de curar a doença. No Brasil, é comum encontrar falsas curas envolvendo frutas e plantas exóticas. Em outras partes do mundo, a cúrcuma, o leite de burra e até mesmo bicarbonato de sódio podem ser uma “solução definitiva” para o câncer.
Infelizmente, muitos pacientes que se deparam com essa informação acreditam nela e podem até mesmo deixar de fazer o tratamento tradicional – este, sim, com eficácia comprovada. Pesquisa da Universidade Yale, nos Estados Unidos, aponta que pessoas que optam pela “medicina alternativa” para cânceres curáveis apresentam maior risco de morte se comparado aqueles que procuram o tratamento convencional.
Desinformação
Esse tipo de conteúdo faz sucesso porque “mexe” com as pessoas. “[Esses vídeos] evocam diferentes tipos de emoção e isso pode ser muito contagioso”, explica Heidi Larson, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, na Inglaterra, à BBC. Já o cardiologista Haider Warraich acrescenta: “É muito assustador quando você ou alguém que você ama recebe um diagnóstico de câncer. Isso nos faz tomar decisões mais com a emoção do que com a razão”, disse à BBC.
Outra motivo para a maior divulgação de vídeos sobre curas e tratamentos está relacionado ao sistema de recomendação do YouTube. Isso porque, para manter o usuário no site, a plataforma reproduz automaticamente vídeos com temas semelhantes já que os algoritmos entendem que esse conteúdo é do interesse do usuário. A prática permite que as pessoas vejam um vídeo atrás do outro com informações errôneas e perigosas.
Ao ser procurado pela BBC, o YouTube explicou que “a desinformação é um desafio difícil, e nós tomamos diversas medidas para endereçar isso, incluindo mostrar mais conteúdo confiável sobre questões médicas, exibindo painéis de informação com fontes confiáveis e removendo anúncios de vídeos que promovam afirmações danosas. Nossos sistemas não são perfeitos, mas estamos constantemente fazendo melhorias e permanecemos comprometidos para progredir nesse espaço”.
A empresa já havia anunciado em janeiro que pretendia reduzir a recomendação de conteúdos que poderiam desinformar usuários de forma prejudicial. Entre os conteúdos classificados dentro desta categoria estavam vídeos que promovem falsas curas milagrosas para doenças sérias. A mudança, no entanto, só foi promovida para conteúdo em inglês. Ou seja, em qualquer outro idioma é falsas informações continuam circulando na plataforma.